Na sala de espera


Era uma segunda-feira, em mais uma consulta de rotina, olhei pro relógio na parede branca fosca do consultório, 10:17am, encolhido na poltrona de couro escuro tentando me aquecer sob aquele ar gelado, meus dedos dormentes entrelaçados entre meus joelhos, impacientemente olhava esperançoso sempre que uma enfermeira passava pelo corredor, foi quando ela entrou acompanhada de sua mãe, aquele olhar doce e inocente, meigo e simpático, olhos castanhos escuro, sua pele clara denunciava que era uma pessoa muito caseira, talvez muito doente, claro! Estava em um consultório médico, deduzir isso não era grande coisa! Enfim, meus olhos desenhavam o contorno de seus cabelos escuros e lisos, longos na altura dos ombros, sua blusa de lã colorida chamou minha atenção naquela sala branca hipnótica e até certo ponto torturante. Ela beijou o rosto da mãe que se despedia para cuidar dos outros compromissos, sozinhos naquela sala fria, trocamos alguns olhares e um sorriso desajeitado, minha timidez de adolescente não me permitiu nada além de um “oi” e um “bom dia”, alguns minutos depois a enfermeira chegou, já estava me levantando quando pra minha surpresa e indignação, ela se dirigiu a garota que já estava em pé com um sorriso angelical no rosto, as duas se abraçaram por um bom tempo, afundei novamente na poltrona de couro escura meio emburrado, foi quando escutei algo que me mudou por dentro desde então, aquela garota linda, aquele sorriso meigo, vestida com aquela blusa colorida, era soro positivo! Em mais um dia rotineiro em seu exame de contagem de células T CD4 de HIV positivo, por um instante acho que não respirei, quando elas saíram abraçadas pelo corredor do hospital, fui em Júpiter e voltei, minha mente ficou congelada por alguns instantes, me senti vazio, o frio da sala havia se instalado dentro do meu estomago, não podia ser! Aquele sorriso, aqueles olhos meigos, vivos! Lindos! Castanhos! Tão jovens.
Até hoje, alguns anos depois, aquela cena persiste em minha mente, uma historia que por mais que eu tente fantasiar um final feliz eu não consigo! Mas o sorriso que ela me deu ainda está em mim, vivo como naquele dia, sei que havia algo maior que a doença, maior que o HIV, maior que a morte, entro de seu coração! Quero acreditar nisso! Isso me faz lembrar o quanto a vida é preciosa, como as escolhas que fazemos são importantes, como é maravilhoso estar sentando próximo a janela do ônibus depois de um dia corrido de trabalho em direção de casa, a vida passa muito rápido, eram 10:17am, um tempo longo para quem esperava sua hora marcada com o médio as 10:45am, mas passou tão rápido! Aquele sorriso mudou meu modo de ver a vida, aprendi a ter mais paciência e sempre devolver ao mundo um sorriso até quando ele tem o rosto da morte.

Nando Marthins

(Baseado em uma experiência real.)

3 comentários:

cristina disse...

Bom dia, acabo de ler este relato,e confesso que é muito comovente essa história, e me faz pensar que, a gente muitas vezes gasta o nosso tempo com tantas coisas vãs, sendo que tem tantas pessoas, (seja em hospitais, abrigos, fila de espera de transplante...etc) muitas vezes precisam apenas de um olhar atencioso, de um gesto ou de uma palavra amiga. Essa tua experiência aqui relatada, na verdade está nos atentando para isso...Obrigada...Que a Graça de Deus seja sobre nossas vidas hoje e sempre!!!

nandox disse...

obrigado pelo carinho, hj sou uma outra pessoa por causa desse acontecimento....

volte sempre...

Ingrid disse...

nossa verdade!!! a gente precisa simplismente dar valor as coisas pequenas da vida! mto comovente!